Urbano e Humano

Urbano e Humano

*Pedro Somma, CEO da Quicko

O ser humano é, antes de qualquer coisa, um animal social. É a este fato que devemos nosso progresso ao longo dos últimos 300 mil anos, período que habitamos o planeta, pelo que apontam antropólogos e historiadores. Como espécie,  enfrentamos diversos desafios e prosperamos rapidamente, criando uma série de conhecimentos que são fundamentais para nós e que só existem porque nós os criamos (ou mais algum animal obedece às nossas Leis ou consome usando dinheiro?)Desta forma, a capacidade humana de cooperação em questão por vezes extremamente complexas foi – e segue sendo – a grande força motriz da nossa espécie. 

Porém acredito que o que acabo de escrever não seja uma grande novidade para a grande maioria das pessoas que nos acompanham aqui. A qualidade cooperativa humana tem sido pauta de autores famosos gerando best sellers como Sapiens, do Yuval Harariou mesmo A Coragem de Ser Imperfeito, da Brené Brown, que aborda caminhos para que essa colaboração seja mais eficaz e humana. Então qual a relevância deste ponto para este blog, focado em discussões sobre mobilidade e as cidades? Mostrar que se é a partir da colaboração que evoluímos, não há nenhum espaço mais importante para que tal colaboração aconteça do que que as cidades e os encontros que nela acontecem 

Eu explico. 

As principais revoluções que a humanidade viveu, sejam elas tecnológicas, como a invenção dos motores a combustão, o uso em massa da eletricidade e o desenvolvimento de computadores pessoais; ou sociais, como as revoluções liberais do século XIX e o aumento dos direitos sociais dentro das democracias modernas, sempre vieram das trocas entre diversas pessoas (em alguns casos centenas de milhares) em encontros marcados ou ocasionais. A concentração humana em cidades, ou seja, áreas com alta concentração de habitantes fixos, aumentou exponencialmente as oportunidades disponíveis e permitiu que diversas inovações surgissem em um ritmo cada vez mais rápido, como é possível notar comparando a história humana com a história das cidades: enquanto nós existimos há 300 mil anos, a cidade mais antiga que se tem notícia, Jericó, tem “apenas” 10 mil anos, ou seja, mesmo as cidades são invenção recente na nossa jornada.  

No entanto, talvez tenha sido a invenção que mais potencializou o progresso humano: desde as primeiras cidades, como Jericó e Ur, no oriente médio, com no máximo 2 ou 3 mil habitantes, até as megalópoles atuais, como Nova Iorque, Tóquio e São Paulo, com dezenas de milhões de pessoas compartilhando o espaço urbanomuito aconteceu por conta das incontáveis oportunidades que essas aglomerações de pessoas proporcionaram. E se há pouco registro do que ocorreu antes das cidades terem sido inventadas, a partir delas muito se pode contar do que aconteceu na história humana a partir de escavações e mesmo documentos escritos, cujos primeiros foram encontrados exatamente nos escombros de antigas cidades. Não teria sido a própria escrita uma inovação desenvolvida para lidar com o aumento da complexidade da organização das cidades antigas que viviam um boom populacional?  

E este processo gera um ciclo virtuoso: se as cidades permitiram a existência de oportunidade essenciais para o progresso humano, foi o avanço tecnológico resultante destes encontros que possibilitou bem estar, qualidade de vida e saúde o suficiente para que as populações aumentassem, em especial nas cidades. Desde metade dos anos 2000, a maior parte da população da Terra passou a viver em cidades. No Brasil, este número é ainda mais impressionante: 84% dos brasileiros vivem em centros urbanos, segundo o CENSO de 2010. Tal comportamento, muito intensificado por aqui na 2ª metade do século XX, obviamente impactou as cidades de forma brutalcriando um novo ciclo, agora vicioso: para acomodar os novos habitantes, as cidades precisaram se expandir geograficamente, em um movimento acompanhado pelo crescimento da indústria do automóvel, que ‘encurtaria as distâncias‘. O resultado já sabemos hoje: cidades com imensas, distâncias longas e engarrafamentos monstruosos. Na prática, as oportunidades ficaram mais distantes e menos acessíveis 

Neste ponto, faço uma provocação: uma cidade inacessível, com menos oportunidades, também não é uma cidade menos humana? Se os encontros e trocas que o urbano nos oferece nos trouxeram até aqui, comprometê-los não é também comprometer nosso futuro? Afinal, somos seres sociais e não há nada mais simbólico sobre nossa humanidade do que as cidades em que vivemos.  


Imagem destacada: Photo by Pict Rider on Istock