Mobilidade após pandemia – melhor que antes?

A pandemia da Covid-19 representa um grande desafio para o futuro da mobilidade no mundo todo. Por algum tempo, enquanto esperamos a criação de remédios e vacinas, seremos obrigados a manter um certo distanciamento social. E é aí que está o problema. O receio do vírus e de aglomerações poderá desincentivar o uso do transporte público e estimular deslocamentos com o carro particular. Num cenário com o uso massivo do automóvel, presenciaremos grandes engarrafamentos, poluição e acidentes, talvez até piores do que antes. Ao mesmo tempo, estudos científicos feitos em Harvard, Siena e Aarhus demonstram que altos níveis de poluição do ar – cerca de 70% da poluição nas cidades deriva dos automóveis – podem aumentar o risco de morte por Covid-19.

 

Como então podemos evitar as aglomerações e manter baixos os níveis de poluição nos centros urbanos? A crise na qual vivemos obrigou as pessoas a mudarem seu comportamento. Trata-se, portanto, de uma ótima oportunidade para impulsionar uma mudança positiva na mobilidade urbana a longo prazo.

 

Com as ruas vazias, cidades como Berlim, Nova Iorque, Budapeste, Bogotá, Cidade do México, entre inúmeras outras – têm ampliado espaços de calçadas e criado ciclovias temporárias. Assim, garantem as condições para o distanciamento social e deslocamentos sustentáveis e seguros como alternativa ao transporte público e ao automóvel individual.

 

Milão – uma das cidades que mais sofreu com o surto do novo coronavírus na Itália –promete transformar 35 km de suas ruas em áreas mais amigáveis aos pedestres e ciclistas, com ciclovias e velocidade reduzida para carros. Paris adiantou a entrega do plano Velo, que vai tornar todas as vias da cidade amigáveis aos ciclistas. Também serão criadas ciclovias temporárias que acompanham o percurso das linhas de metrô, para aqueles que hesitam em voltar ao transporte público. E o governo federal está oferecendo ajuda financeira para aqueles que escolhem a bicicleta como modo de transporte no período pós-quarentena.

 

Em Nova Iorque, o sistema de bicicletas compartilhadas da cidade (Citybike) viu um aumento de 67% do número de viagens no mês de março. Em Pequim esse aumento foi de 150% no mesmo mês. Na Filadélfia, o tráfego de ciclistas aumentou 151% também em março. Na Escócia, só na cidade de Dundee, as viagens de bicicleta aumentaram 94% em abril. O governo escocês anunciou que vai disponibilizar 10 milhões de libras para criar ciclovias temporárias e alargamento de calçadas. Enquanto isso, o fechamento temporário das ruas para carros, com o intuito de garantir mais segurança na caminhada e no uso de bicicletas, foi adotado em várias cidades dos Estados Unidos – Boston, Denver e Oakland – e outras em outras cidades como Manchester, Bogotá e Vancouver.

 

No Brasil, presenciamos uma grande dificuldade em passar pela fase da quarentena com menor nível de deslocamento possível. Em São Paulo, até agora, medidas de longo prazo para a promoção de uma mudança na mobilidade urbana não foram anunciadas. Apesar do esforço atual estar focado no desincentivo aos deslocamentos, políticas de mobilidade deveriam ser implementadas para prepararmos a cidade para o cenário pós pandemia.

 

Medidas de restrição veicular podem ser positivas, mas precisam vir acompanhadas de medidas de incentivo a outros modos de transporte individuais mais sustentáveis, que possam servir como uma alternativa realmente segura ao transporte coletivo. Um exemplo de ação que já vem sendo reivindicada por algumas associações seria a abertura das ciclovias de lazer de São Paulo durante todo o período atual e pós quarentena. Deste modo, reduzimos o espaço de circulação de veículos, ao mesmo tempo em que permitimos os deslocamentos seguros para aqueles que precisam.

 

São Paulo não deveria deixar essa oportunidade passar. Este momento pode ser um catalizador para um futuro mais limpo, eficiente, sustentável e seguro. Cidades que aproveitarem esse momento para evoluir vão sair dessa crise melhor do que estavam antes. A questão agora, portanto, não é quando vamos voltar ao normal, e sim o quanto seremos capazes de evoluir nesse momento.

 

 

Fontes:

BBC, The Guardian, The New York Times, BBC